“I’m not a dog no” já cantou Falcão em sua música de mesmo nome. Os brasileiros podem até ter uma síndrome de viralatismos em alguns momentos, como disse Nelson Rodrigues, por se acharem inferiores em relação aos países mais desenvolvidos, mas nem por isso líderes de outros países podem nos tratar como cães.
A subserviência proposta por Trump ao Brasil, com o seu tarifaço, é inadmissível. O Brasil é um país Soberano. Mas o que diabos isso quer dizer? Vou tentar te explicar o que é soberania em uma linguagem simples e coloquial aqui no meu blog.
Curiosamente esse foi um dos temas da minha tese de doutorado e passei quatro anos pesquisando sobre esse assunto. Por isso, me considero qualificado para falar sobre esse tema, mais do que outros.
Soberania está relacionada ao poder. Um poder que vem do povo, segundo as origens constitucionais dos Estados nacionais como o nosso. Agamben, contudo, na sua obra Homo Sacer, que trata sobre o tema, procurou analisar as origens obscuras desse poder. Simplificando bastante a questão, ele fala na soberania como uma relação de poder de uma pessoa sobre outra. Por essa perspetiva, em sua origem a soberania é uma forma de dominação de alguém sobre a vida do outro. Então, se do ponto de vista constitucional e tradicional um povo é soberano e pode definir através de suas leis a maneira como irá viver, para Giorgio Agamben, soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção, suspendendo a lei para exercer um controle absoluto sobre a vida. Nesse sentido, o soberano exerce o poder e é a sua personificação, enquanto que o outro na relação é só uma mera vida destituída de poder. Sendo assim, o poder soberano acontece internamente nos Estados, não havendo dentro deles outro poder maior sobre a vida das pessoas. Como vivemos em um regime jurídico esse poder do Estado matar a sua população é velado e não explicito. A lei é o véu que impede o exercício do poder autoritário.
No caso, o Estado brasileiro é soberano em relação aos brasileiros, pois, mesmo não podendo matar, pode privar os cidadãos do seus país de liberdade pelo descumprimento das leis demonstrando assim ser a autoridade máxima sobre a sua população. Já no cenário internacional, isso significa que as autoridades de outros países não podem interferir na vida da população de outro país, já que isso viola a sua soberania. Ou seja, o poder de um Estado de controlar a vida das pessoas mediante as leis, ou através da suspensão delas no estado de exceção. Deu para entender, ou ainda está confuso?
No caso do Trump, ele poderia nos matar? Se resolvesse jogar uma bomba aqui até poderia. Mas na prática não. Ele não tem autoridade para interferir na vida dos brasileiros. Já que ele não é o soberano do povo brasileiro. Mas com a sua taxação ele pode pretender nos fazem mal. Se ele está começando uma guerra comercial, não é contra o Brasil, ou contra o presidente do país. Ele quer mandar na justiça do nosso país, o que seria o mesmo que dizer que ele quer mandar nos brasileiros e isso não dá para aceitar. Pois o aumento das tarifas é uma chantagem para que a justiça do país obedeça a vontade dele e suspenda as lei e não as aplique criando uma espécie de estado de exceção. Cabe a nós brasileiros, resistirmos de todas as formas possíveis, seja através do governo eleito, individual ou coletivamente. Então, qualquer político ou apoiador que defenda seu algoz é uma ameaça direta a sua própria sobrevivência. As super tarifas não se tratam só de comprar ou vender barato ou caro, são vidas que estão sendo ameaçadas e que serão perdidas pelos conflitos e desemprego que a ausência de comércio justo pode desencadear.
Por isso nada mais justo que um vampetaço na cara do tirano que quer nos sobretaxar. Se o Brasil não tem bomba atômica para jogar, a gente tem humor e isso eles não podem nos tirar, então infernizar o Laranjão é o que ele merece. Que a Casa Branca sinta o cutuco e que nosso boicote aos produtos do tio Sam seja proporcional e que eles respeitem as regras da reciprocidade, desqualificando assim o candidato a imperador do Brasil que se apresenta, e a todos os seus desvairados apoiadores insensatos. Podemos até ser vira-latas, sim! Mas cachorros não!
Espero que com as minhas palavras tenha ajudado você a entender melhor o momento atual que vivemos.
NOTA: Se estiverem interessados em um pensamento mais elaborado e aprofundado cheio de referências, leiam a minha tese. Um dia talvez eu publique e reescreva ela em formato de livro, mas por enquanto isso ainda não foi possível. No momento é preciso se contentar com as opções disponíveis, do contrário seria obrigado a perpetuar o silêncio que já se prolonga por muito tempo.



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